
Fala galera!
Esses dias, andei lendo no blog do Vida Ruim de Pobre sobre aposentadoria com dividendos e deu uma discussão danada lá pelos comentários. Resumindo a história, o Pobretão chegou num número de 1,2milhões para ter uma aposentadoria R$ 120.000 anuais, que dividindo por 12 meses, o equivalente a R$ 10.000/mês.
No entanto, o blog do Viver de Renda chegou a conclusão que para o mesmo rendimento e de forma segura, o ideal seria ter 3 milhões.
Bela diferença, não é verdade?
Que fique bem claro que não podemos imaginar como será o mundo daqui há 30, 40 ou 50 anos. O máximo que pode ser feito é visualizar a situação do passado e a de hoje. Se grandes mudanças ocorrerem (e é provável que ocorram!) teremos que analisar o momento para que decisão tomar.
Muitos analistas recomendam que ao longo do tempo você diminua a exposição à renda variável (a medida que vai envelhecendo), pois em caso de quedas ou crises não teria tempo para se recuperar.
A princípio pode parecer que faz sentido. Mas eu acho que é apenas uma falácia. Digamos que você fosse dono de 1% da Vale. Faria sentido vender todas as ações (ou a maior parte delas) para comprar títulos de renda fixa? Bom, dos caras mais ricos do mundo você não vê ninguém vendendo os próprios ativos, não é verdade? Por que será, hein?
Vamos ao papo teórico pra depois ir pras contas. Primeiramente vamos entender o seguinte: o que chamamos de aposentar? Aposentar seria ter RENDIMENTOS no padrão de vida que você escolheu e de forma que eles se mantenham ao longo do tempo SEM SEREM CORROÍDOS PELA INFLAÇÃO.
Ou seja, estamos interessados em fluxo de caixa!
Para nos aposentarmos, precisamos ter um PATRIMÔNIO que GERE um bom FLUXO DE CAIXA. Este conceito é importantíssimo!
Por exemplo, se você tem um terreno hoje no valor de 3 milhões consegue se aposentar apenas com ele? Resposta: NÃO! A única coisa que esse terreno vai lhe dar é custos de manutenção, pois ele NÃO GERA rendimentos. Ele pode até estar valorizando, mas como você vai viver apenas dele? Você talvez pudesse vender ele em partes, mas digamos que não seja possível devido à área (hipotético). E aí? Como vai pagar as contas? Ou seja, você possui um PATRIMÔNIO que está até crescendo, mas não possui FLUXO DE CAIXA, que é exatamente o que você está precisando!
Analisando bem, precisamos apenas do fluxo de caixa, sem ter patrimônio algum!
Na mesma linha de raciocínio, você pode ter uma renda de vitalícia (por exemplo, pensão militar) sem ter patrimônio. Você possui fluxo de caixa, mas não possui patrimônio e, no entanto, pode se aposentar.
O blog do Viver de Renda chegou àquele valor concluindo que seria possível retirar 4% do patrimônio anualmente, ou seja, 4% de 3milhões dariam os tais R$ 10.000/mês. Ele também acredita em chamada renda passiva, ou seja, você vai fazer suas aplicações hoje e nunca mais, durante o resto da sua vida, vai mexer nele, apenas fazer retiradas. Em uma discussão nos comentários ele citou o livro The Quest for Alpha: The Holy Grail of Investing.
Existem várias discussões sobre essa (“gestão passiva” x gestão ativa); eu acredito que uma estratégia desse gênero (totalmente passiva) não pode ser boa, afinal de contas, não importa qual o tipo de patrimônio que você tenha, sempre precisa estar tomando conta dele.
Por exemplo, imagine que você monte uma carteira com uma empresa badalada hoje, mas nos anos seguintes ela vai apresentando resultados cada vez piores, dividendos menores e o horizonte dela para o longo prazo não é nada bom. Faz sentido manter este ativo em mãos? EU não vejo NENHUM motivo para tal.
Ao mesmo tempo, vários estudos já mostraram que ter uma gestão muito ativa, ou seja, fazendo trades (comprando e vendendo o tempo todo) também não dá resultados muito melhores do que simplesmente comprar o índice.
Assim, ficamos num impasse; qual adotar? Como sempre, o bom senso é o melhor caminho. E neste caso, poderíamos seguir o famoso ditado: “um olho no padre e outro na missa”.
Resumindo a minha opinião no assunto: ficar simplesmente olhando o patrimônio não é bom. Qualquer patrimônio que seja necessita de manutenção. A manutenção de ativos financeiros só não é tão simples como contratar alguém para limpar aquele terreno que você está esperando valorizar. Mas também não é tão complicado.
Sou seguidor das idéias de Benjamin Graham, as quais foram aprimoradas por Warren Buffet. Hoje, após mais de 60 anos de publicadas, suas idéias se mostraram vencedoras. Muitos dizem que estão ultrapassadas, mas curiosamente deram certo em todas as últimas décadas (inclusive a de 2000!). E não existe elas estarem ultrapassadas. Os conceitos são básicos, simples e por mais teorias loucas que escrevem por aí, não dá pra fugir deles.
Um dos conceitos mais importantes (e até óbvios) é que uma empresa precisa ser lucrativa. Que coisa, não? Na verdade, ela deve ter LUCROS CRESCENTES, pois sabemos que a inflação corrói o valor da moeda no tempo. As empresas devem crescer o suficiente para vencer a inflação (o que elas fazem muito bem, pois na pior das hipóteses elas passam a inflação para seus clientes…). Além disso, ela deve ter boas margens de lucro, ser pouco endividada, dentre outros critérios.
Bom, depois de muito blá blá blá, vamos aos números!
Para quem deseja se aposentar com dividendos, como já explicado acima, precisa de um bom fluxo de caixa. E em termos de ações, isto significa ações que pagam gordos dividendos. Existem várias ações na Bovespa que pagam bons valores. O caso clássico é das empresas do setor de energia elétrica. Hoje elas são as que mais pagam dividendos. Sendo assim, uma carteira concentrada nelas seria ideal. Temos algumas boas exceções como a Souza Cruz e, mais recentemente, a Natura.
Assim sendo, parti do princípio do Pobretão, ou seja, um patrimônio de 1,2milhões para montar a carteira.
Montei dois tipos de carteira: uma de 70% do patrimônio voltado para ações boas pagadoras de dividendos. Dos 30% restantes dividi em blue chips, sendo 10% indústria, 10% bancos e 10% setor imobiliário. E também montei uma carteira com 100% em ações pagadoras de dividendos, como proposto pelo Pobretão. Como critério, adotei que todos os ativos deveriam ter pelo menos um histórico de 10 anos de lucros e, por isso, algumas boas empresas que eu gostaria de utilizar não entraram (como Natura).
Além disso, resolvi escolher um bom ano pra começar: 2008! E ainda fiz dois cenários: um no início de 2008 e outro hipotético, onde os ativos teriam sido comprados nos respectivos topos de 2008, ou seja, quando o investidor tivesse realizado as “piores” compras possíveis.
Clique aqui para ver a simulação com compras no início de 2008 e clique aqui para ver o pior momento de cada ativo (aqui, ressalto que a maioria deles teve seu pior momento só no meio do ano, ou seja, o investidor não teria recebido os dividendos do 1º semestre, mas isso é apenas para caráter de estudo; é como se tivesse comprado no início de 2008, só que com preços mais caros).
Apresento os resultados (o FC, fluxo de caixa, já está descontado o imposto de renda):
Carteira Aposentadoria – início de 2008
| 70% Dividendos |
|
FC |
Patrimônio |
DY |
∆% Patrim |
∆% PatrimAcum |
| 2008-0 |
- |
1.200.000 |
|
|
|
| 2008 |
11.865,16 |
1.012.662,00 |
14,1% |
-16% |
-16% |
| 2009 |
16.431,15 |
1.494.919,00 |
13,2% |
48% |
25% |
| 2010 |
14.078,69 |
1.667.411,00 |
10,1% |
12% |
39% |
| 2011 |
14.498,65 |
1.797.568,00 |
9,7% |
8% |
50% |
|
|
|
|
|
|
| 100% Dividendos |
|
FC |
Patrimônio |
DY |
∆% Patrim |
∆% PatrimAcum |
| 2008-0 |
- |
1.200.000 |
|
|
|
| 2008 |
14.999,28 |
1.184.169,00 |
15,2% |
-1% |
-1% |
| 2009 |
21.269,76 |
1.638.450,00 |
15,6% |
38% |
37% |
| 2010 |
17.978,48 |
1.883.363,00 |
11,5% |
15% |
57% |
| 2011 |
18.380,45 |
2.165.593,00 |
10,2% |
15% |
80% |
Carteira Aposentadoria – pior momento de 2008
| 70% Dividendos |
|
FC |
Patrimônio |
DY |
∆% Patrim |
∆% PatrimAcum |
| 2008-0 |
- |
1.200.000 |
|
|
|
| 2008 |
10.019,31 |
838.544,00 |
14,3% |
-30% |
-30% |
| 2009 |
13.949,52 |
1.237.092,00 |
13,5% |
48% |
3% |
| 2010 |
11.904,01 |
1.385.064,00 |
10,3% |
12% |
15% |
| 2011 |
12.187,13 |
1.499.640,00 |
9,8% |
8% |
25% |
|
|
|
|
|
|
| 100% Dividendos |
|
FC |
Patrimônio |
DY |
∆% Patrim |
∆% PatrimAcum |
| 2008-0 |
- |
1.200.000 |
|
|
|
| 2008 |
12.818,70 |
983.102,00 |
15,6% |
-18% |
-18% |
| 2009 |
18.277,04 |
1.359.764,00 |
16,1% |
38% |
13% |
| 2010 |
15.370,11 |
1.571.942,00 |
11,7% |
16% |
31% |
| 2011 |
15.581,65 |
1.813.714,00 |
10,3% |
15% |
51% |
Olhando para estes números podemos chegar a várias conclusões.
Em primeiro lugar e a mais importante de todas: o fluxo de caixa mensal (FC) não ficou abaixo de R$ 10.000 (líquido de IR) em NENHUM momento.
Outra coisa: o cenário proposto pelo Pobretão (carteira com 100% dividendos) foi a que teve o melhor rendimento, tendo obtido renda muito superior a planejada. Em 2009 a renda média teria sido R$ 21mil (mais que o dobro do planejado!).
Mesmo considerando o pior momento para ter entrado, e um dos piores na história do Ibovespa, os dividendos se mantiveram num nível muito bom. Lembre-se que em 2009 apesar da incrível recuperação da Bolsa, muitos analistas já falavam que a crise estava só começando e era mais profunda. Apesar disso, do subprime ninguém fala mais. A crise da moda é a Europa. De qualquer forma, em 2010 e 2011 a Bolsa apanhou bastante e devolveu muito dos ganhos de 2009.
| Ano |
IBOV |
∆% |
| 2008-0 |
62891 |
|
| 2008 |
41515 |
-34% |
| 2009 |
70240 |
69% |
| 2010 |
69962 |
0% |
| 2011 |
59265 |
-15% |
Voltando aos números, até que para um momento “terrível” de crise, nosso investidor estaria relativamente tranqüilo, não concorda? Pegando o cenário teórico, hoje ele já teria uma renda em torno de 14,5mil. Se tivesse projetado uma inflação de 6,5%aa, os 10mil de 2008 deveriam valer hoje aproximadamente 12,1mil. Ou seja, ele já estaria ganhando MAIS do que o planejado. E pela carteira de dividendos estaria ganhando 18,4mil!
Vejam que no pior cenário de todos (70% dividendos, pior 2008), mesmo o patrimônio tendo caído 30% no 1º ano, o fluxo de caixa se manteve no pretendido!
Outra coisa interessante é que em todos os cenários de 2009 para 2010 os dividendos diminuíram, mas o patrimônio aumentou. E é este tipo de coisa que nosso investidor deve ficar atento. Ele não quer dividendos diminuindo, ele quer dividendos aumentando. O patrimônio é indiferente!
E é aqui que entra a gestão de ativos. A Souza Cruz possui um excelente histórico de pagamento de dividendos, mas caso ela continue a diminuir, é bom analisar o mercado e verificar o que está ocorrendo. Em caso de as perspectivas não melhorarem, o ideal é se desfazer desse ativo e comprar outro que pague gordos dividendos. Temos aos montes por aí.
De fato, olhando para o DY (dividend yield, neste caso, dividendos anuais/patrimônio) vemos que ele diminuiu ao longo dos anos. Mas se também vimos que os dividendos estão aumentando, isto só pode ser uma coisa: o patrimônio cresceu muito mais rápido que os dividendos!
Olhando para o todo, pegando o cenário padrão, de 2008 para 2011 o patrimônio aumentou 77,5%, enquanto os dividendos aumentaram apenas 22,2%.
Olhando agora para os números da simulação, algo bastante interessante é mostrado nas carteiras de 70% Dividendos.
Com exceção do setor de elétrica, foram 10 ativos selecionados. Reparem que em relação à cotação (ou seja, PATRIMÔNIO) dos 10, apenas 2 valorizaram, mostrando que a crise de 2008 foi uma porrada realmente forte. NO ENTANTO, em relação aos dividendos 8 dos 10 aumentaram! Que coisa estranha, não?
Olhando apenas para estes 30%, o patrimônio caiu em torno de 22,3%. Mas os dividendos aumentaram de 16,0mil anuais para 19,4mil anuais, ou seja, 20,3%, que a juros compostos dá em torno de 6,36%. Basicamente, a inflação projetada.
Ou seja, mesmo tendo perdido 22% do patrimônio, o fluxo de caixa aumentou 20%, acompanhando a inflação! Isso quer dizer que mesmo com essa carteira, má pagadora de dividendos por assim dizer, ele não teria problemas.
Apesar de ser uma análise curta (apenas 4 anos), estamos falando de um dos piores momentos de crise que já tivemos nos últimos anos e o mercado financeiro sofreu bastante. Será que tinha algum outro momento pior para entrar?
Na verdade, analisei o IBOV desde 1992 e de lá pra cá tivemos 3 grandes crises. Curiosamente, em todas elas a queda do topo ao fundo foi em torno de 50%. Foram os seguintes momentos:
1997 a 1998, onde o topo de 1997 foi rompido em 1999;
2000 a 2002; onde o topo de 2000 foi rompido em 2003;
05-10 de 2008; onde o topo de 2008 já foi testado 2 vezes, mas não foi rompido até hoje (março de 2012, onde está próximo de testar).
Ou seja, as piores crises duraram em torno de 2-3 anos; esta de agora, já está com quase 3 anos. Mas mesmo assim nosso amigo investidor não estaria tendo problemas!
E que elas durem 20, 30 anos! Se os dividendos continuarem subindo, pouco importa se há crise ou não!
Por ser um caso “pontual” (visto que estou pegando o rendimento desta carteira e não uma média do mercado), isso impede de chegar a uma conclusão generalizada, obviamente. No entanto os seguintes pontos são muito importantes:
1) Mesmo no pior momento da crise, a estratégia deu certo.
2) Para escolha dos ativos, levei em consideração apenas os seguintes critérios básicos:
> Lucros nos últimos 10 anos;
> Histórico de pagamento de gordos dividendos (alto payout);
> Empresas já reconhecidas pelo mercado
3) Diversificação de ativos
4) Compra realizada no início do ano, sendo indiferente o preço das ações no momento.
Acredito que poderíamos montar diversos tipos de carteira com as características acima e chegaríamos a resultados parecidos.
Creio que com estes números e com tudo que apresentado anteriormente, podemos concluir que SIM, é possível obter uma renda real ao longo dos anos de R$ 10.000 tendo disponível, hoje, 1,2milhão para aplicar.
OBS.: este artigo não representa recomendação de compra ou venda de nenhum dos ativos citados no texto. Como política de transparência, informo que, destes, sou acionista de: Cemig, Copel, Vale, Petrobras e Banco do Brasil.